sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Conto de Natal - Eça de Queiroz



Nos tempos em que Cristo andava por esse mundo, viva em Jerusalém uma triste viúva, a mais desgraçada das mulheres de Israel”! Seu único filho, todo aleijado, jazia sobre uma cama apodrecida, atrofiando-se e gemendo.


Sobre mãe e filho, como uma noite de pesadelos, caiu a mais profunda miséria. Até azeite faltava, para acender a lâmpada de barro, jogada a um canto.

Um dia, um mendigo entrou no casebre, repartiu o pão que trazia com os dois e, enquanto coçava as feridas da perna, contou que havia aparecido um Rabi, na Galiléia, um homem que amava as criancinhas e que prometia aos pobres um reino luminoso, maior do que a corte de Salomão!

Com os olhos famintos, a mãe quis saber onde encontrar aquele Rabi e o mendigo suspirou: “Quantos o desejavam e quantos perderam a esperança de encontrá-lo! Obed, tão rico e Sétimus, tão soberano, mandaram caravanas atrás do Rabi, com generosas promessas de recompensa... E as caravanas voltaram, sem ter descoberto em que mata, em que cidade, em que toca ou palácio se escondia JESUS”.

A tarde caia. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu, pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe voltou a seu canto, mais vergada, maia abandonada...E então, o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse RABI, que amava as criancinhas, ainda as mais pobres e sarava todos os males, ainda os mais antigos.

A mãe apertou a cabeça, esguedelhada:

-”Oh”! Filho. E como queres que te deixe sozinho e me meta nos caminhos, a procura do RABI DA GALILÉIA?

Coed é rico e têm servos e, em vão, buscaram por Jesus, por areias e colinas... Sétimus é forte, tem soldados e, em vão correram por Jesus, por todos os caminhos!

Como queres que te deixe?

Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora aqui, conosco, dentro dessas paredes e, dentro delas, nos prende! E, mesmo que encontrasse, como convenceria eu o Rabi a vir até aqui, para sarar um entrevado tão pobre, sobre em uma cama tão em pedaços?”“

A criança, com duas lágrimas nos olhos, murmurou:

-“Oh! Mãe! Jesus ama todos os pequeninos... E eu, ainda tão pequeno e com um mal tão grande e que tanto queria sara...”.

E a mãe replicou, entre os soluços:

“Oh! Meu filho! Com te posso deixar sozinho? Longas as estradas da Galiléia e curta a piedade dos homens! Até os cães me ladrariam, ao passar... Talvez Jesus morresse... Ninguém o achou! Talvez o céu o tenha levado, da mesma forma que o trouxe...”.

Erguendo, suas mãozinha que tremiam, o menino suplicou:

“Oh! Mãe eu queria ver Jesus!”

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criancinha:


-“Aqui estou”.

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